sábado, 4 de julho de 2009

Olhos


O homem andava pela rua onde costumava passar todos os dias. Entre todas as coisas que via sob a calçada, os olhos encontram postes. O jornal expondo os crimes da cidade, a mulher enamorada a vitrine com apoio do vestido-manequim. Pessoas ao ponto de ônibus, a criança a comprar doce.
Seguia como de rotineiro, passos largos a assobiar na companhia de Marisa seus hinos da manhã. Abaixou para amarrar os sapatos. Voltou a andar. Olhou antes de atravessar, quando viu uma mulher bela na sacada de uma casa em ruína. Sem inocência, olhou-a com olhos de comer fotografia. Ela esboçou um sorriso para questionar:
-Homem, que me viu a princípio com olhos avesso. Eu o conheço?
Ele a fitou com mistério e respondeu:
-Não. E desceu a rua devagar.

O BANDO


As cortinas se abrem. O canhão de luz ao centro. O som inicia a maquinar aos ouvidos culpados. Andam juntos, seus olhares mostram a conivência entre si. Movimentos tortos seguem em meio à maquiagem colada no rosto e esboçada pela pressa da rotina.

Todos seguem aleatoriamente a apontar de maneira grotesca a realidade cega pelo tempo rápido. A vida só pára quando algo realmente atropela o espelho. A dúvida paira pelo ar. Qual o assunto que mais lhe interessa? Além da vida in vitro feita nas coxas e vivida ás pressas? O homem sem entender, volta ao automático aplaudindo de pé. De resto, tudo se congela até que se fecham as cortinas.

sábado, 13 de junho de 2009

LAVRADOR OU SEMIDEUS

Acesos os olhos
O coração espera
O segredo que o acelera
E não se congela.
Conte.

Mostre por onde seguir
Para chegar ao peito
No leito seu,
Na estrada que convém.

O seu imperfeito
É o meu mais-que-perfeito
Não cale o bem
Efeito amiúde
Seu.





A força do silêncio ensurdece. A boa palavra pode estar na imagem congelada, entre frases não ditas, entre os movimentos desfigurados de uma sinfonia.”


João Bufão



Fases da Lua

“Coisas a se transformar, para desaparecer.”
(Adriana e Marisa)


As coisas não são como são. Há dias que passam, e as rotinas debruçadas em horas se perdem. A que devemos a transcendência? Eu mesmo não reconheço a capa e contracapa esboçada por sentidos incompletos, pensamentos surreais, razões improváveis e filosofias de botequim. Um mundo quebrado.
A que valem mentiras verdadeiras, verdades incorretas se não a de provar a si mesmo o quão foi e agora é. Basta fechar os poros e aceitar. Palpitar desoladamente o íntimo seu e nada mais.
É colocar sob a mesa o que se tem a mão, sem se esquecer o imaterial, aquele que só se senti e se mantém puro por não ter sido tocado. Mesmo calado, gritar a que se veio e como se vai. Pegar estrada sem navegar depressa. Sentir os pés no chão. Voar quando puder. Ser absoluto e constante até desaparecer (...) fases da lua.