quinta-feira, 8 de julho de 2010

Despedida

Era tão parvo seu semblante inquieto, a ele que se deixou encantar ao frívolo sentir, vinha-lhe o pesar de sentir. Não era amor próprio. Fossem todas as piadas que ouviu ela dizer, as músicas que concordavam, fossem todas as vezes até tarde sem motivo algum. Andava pelas tantas esquinas desordenadas, tortas que só o lúdico tem aos olhos. E tudo que fez, mentiras necessárias, a repugnância a verdade triste que agora já não era mais. Despediu-se desses sentimentos velhos, não compartilhados, talvez só com outros de si. Foram cantando baixo, querendo ser diferente, tentando deixar de ser.

Amor não chora
Eu volto um dia
O rei velho e cansado
já morria

Perdido em seu reinado
sem Maria
Quando eu me despedia
no meu canto eu lhe dizia:

-Já vou, já vou....mas não conduzia.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Passeio


Não haverá um equívoco em tudo isso?
O que será em verdade transparência
Se a matéria que vê, é opacidade?
Nesta manhã sou e não sou minha paisagem
Terra e claridadese confundem
E o que me vê
Não sabe de si mesmo a sua imagem.
(...)
Hilda Hilst

Olhos de si mesmo


(Pode não fazer sentido, fosse o peso das palavras)

Pode não ter sono,
pode não ter sonho
Fosse insônia, ressaca ou desvario
toda a fervura de pensamentos.
Pode não ter canto,
pode não ser encanto
Fosse o jornal de notícias que não importam mais
toda espessura que se forma.
Pode não ser santo,
pode até mudar o manto
Fosse à reza que cansou
e nem poética ecoa mais.
Pode não ser brando,
pode faltar céu
Fosse à chuva
e tudo limitar-se ao quase.








quinta-feira, 27 de maio de 2010

Queres?


Quero ser eu,
aquele que o olha nos olhos
Seu cabelo robusto, sua barba mal feita
seu café simpático e que simpático.


Quero ser eu,
aquele que o toca nas mãos,
sentir aquele calor pretensioso
e que logo se entrega ao vulgar.


Quero ser eu,
um sorriso sem medo, choro sem motivo,
ser mais um dia,
um céu e algumas palavras.


Quero ser eu,
a dúvida, a satisfação
a flor, a canção
o desejo e o coração.


Quero ser eu,
o amor consumido
esse mon amour erudito
ignorado pelo seu querer ser.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Soneto da cidade


Eu vou me perder pela cidade
perder você dos meus pensamentos,
seria uma falsa felicidade
e um verdadeiro firmamento.


Em cada esquina, passos e vaidade
calçadas tristes, pessoas pelos pavimentos
Esquecer uma flor murcha por saudade
a ela restou voar aos ventos.


Entre os prédios e o cinza céu, idade
desamor quebrado, desvairado
Excesso de verdade.


Esse amor permite questionamentos
mas seus olhos fechados, meus pés perdidos
na cidade, isso fica sem cabimento.